Feminino Imperfeito


"À margem desse eco, a toda a suposta condição do ser mulher, está a mulher deficiente. Aquela que é simplesmente ignorada, talvez por nem sequer ser considerada Mulher."

Feminino Imperfeito





















"Para uma sociedade mais justa" é o lema que a União Europeia escolheu para o Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos, que se celebrou ao longo de 2007. Já não nos chegavam os dias disto e daquilo, agora também temos anos próprios para a Humanidade discutir e ouvir-se a si mesma, sobre o que há a mudar no mundo. Continua a falar-se sem se agir.
Hoje toda a gente fala da Mulher, à escala internacional! Da mãe, da criança, da adolescente, da idosa, da negra, da prostituta, da social e da activa no mercado de trabalho, todas mulheres... Aplaudidas e homenageadas quando sobrevalorizadas face ao sexo oposto, denunciadas e lembradas quando discriminadas. À margem desse eco, a toda a suposta condição do ser mulher, está a mulher deficiente. Aquela que é simplesmente ignorada, talvez por nem sequer ser considerada Mulher. Porque é "portadora" de algo que a torna diferente, é tantas vezes esquecida da sua condição de mulher. A essa, sobrepõe-se as características da incapacidade!

A cadeira de rodas, as muletas, o não poder ver as cores do arco-íris, a baixa estatura, o não ser capaz de ouvir o pássaro que pousa na janela a cantar, as deformações ósseas, o não conseguir apelar à tal "sociedade mais justa", sem ser pela escrita, pois a voz não sai, ou até quando a mente está em "off"... o coração está no mesmo sítio de todas as outras mulheres e bate. Elas existem, como eu, mulheres que o Criador colocou no universo também com o propósito de amar e serem amadas. Tocadas. Desejadas. Queridas. Contempladas. Mimadas. Sabem sorrir e chorar, sabem sentir, não apenas por serem mulheres, mas porque são humanas.
Num dia em que a Mulher gritou por independência e luta pela igualdade de oportunidades, é preciso que se fale também de emancipação de mentalidades no que concerne à deficiência. Sem ser através de um tratamento de choque como aconteceu em França quando a tetraplégica Delphine Censier se despiu literalmente de preconceitos retratando o seu corpo de forma erótica e sensual. Acredito piamente que o problema reside na resistência à beleza que vem do interior, já que com ela vem uma conquista muito mais árdua que não se resume ao corpo a corpo de uma relação amorosa.
«As mulheres deficientes são duplamente discriminadas, por serem mulheres e por serem deficientes», disse a presidente da Cooperativa Nacional de Apoio a Deficientes (CNAD), também ela portadora de deficiência, aquando de um encontro nacional sobre a deficiência feminina. A discriminação de que são alvo as mulheres deficientes no acesso ao emprego, e no facto de serem as primeiras a ser despedidas, quando a lei exige que sejam as últimas; ou em casa, onde são mais vulneráveis à violência física e sexual, mesmo dentro da família, por serem consideradas mais frágeis e carentes. A sexualidade e a maternidade da mulher deficiente foram também temas abordados. Tenho consciência de todos os direitos que possuo enquanto mulher e enquanto deficiente – que em nada cabe na tradução espanhola à letra "pessoa menos válida".
159 anos que o sexo feminino iniciou uma luta. Actualmente, ela ganhou novos contornos mas continua presente. Na urgência de aprender o verdadeiro significado da palavra Mulher: Perguntam se em quase três décadas de vida eu sofri por ser apelidada, olhada, encarada sempre como "Mulher Deficiente"? Não falei até aqui de mim. Dei às minhas palavras outras vidas, outras caras, outras vozes, silenciadas pela escassez da tal "igualdade de oportunidades para todos" ainda que espelhadas num mesmo sorriso de esperança. É que dentro do meu feminino imperfeito rotulado por uma sociedade que associa perfeição a normalidade nunca me senti assexuada nem permiti que me tratassem como tal.
Eu sei que sou deficiente – e por muitos anos internacionais que se celebrem haverá sempre quem não veja em mim nada mais do que isso. Mas há outro detalhe importante, primeiro sei que sou Mulher – e isto ninguém pode fingir que não vê. Thank God i'm a (wheels) woman!
Texto de Mafalda Ribeiro (D´Aqui)




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