Prevenção: DOENÇAS CARDIOVASCULARES


"Tudo o que acharem que for bem dito sobre o problema? é divulgar o mais possível. Não se calem! "

Em nome do Coração

Entrevista ao
Prof. Dr. FERNANDO DE PÁDUA
Cardiologista

Que diagnóstico faz da Saúde Cardiovascular em Portugal e como tem evoluído nos últimos anos?

Queria primeiro de tudo frisar que quando se fala neste tema é inevitável falar de números, mas há uns que dizem que está tudo melhor e outros que dizem que está tudo pior. A minha noção é que a melhoria é “espectacular”. Posso parecer um exagerado, mas é a verdade. Acontece que as pessoas dizem “mas então continuam a morrer 40 mil pessoas por ano vítimas do coração… a mesma coisa que há 20 anos”. É verdade! Mas se separarmos as pessoas por grupos etários, verifica-se uma coisa muito curiosa. É que neste momento, eu diria, quase 80% das mortes têm mais de 75 anos e há vinte anos morria-se aos 30, aos 40 e aos 50 anos.

Em 1960 morriam por ano 6 mil pessoas com 85 ou mais anos… agora há mais de 28 mil mortes. O que quer dizer que se morre muito menos por doença cardiovascular nos grupos etários mais baixos. No entanto, o número total continua a ser o mesmo. Para ilustrar estas variantes, a Comunidade Internacional e a Direcção Geral de Saúde dá as mortalidades por população padronizadas, com informação das médias por cada grupo etário. Assim pode-se ver a melhoria que vai acontecendo. Por exemplo, morrem menos de metade das pessoas que morriam com anos, menos de metade das pessoas de 50 anos e aos 60 morre menos um terço. No entanto, aos 80 morre um pouco mais de gente e aos 85 morrem mais. Quando começamos a olhar para as estatísticas e vemos o que acontecia em 1960, quando começámos a fazer parte dos estudos, tínhamos 277 mortes por AVC em cada 100 mil habitantes…. neste momento temos menos de 92 (cálculos para a população padronizada europeia). É 3 vezes menos. Portanto posso dizer que a morte por doenças cardiovasculares entre 1977 e 2007, nestes 30 anos, baixaram na ordem dos 40% (menos 50% nos acidentes vasculares cerebrais e menos 30% por doença isquémica). Nas doenças cérebrovasculares continuamos a ter mais que qualquer outro país na Europa, embora seja menos de metade que há 30 anos.
Sabe-se que a hipertensão é um problema grave de saúde pública em Portugal. Qual a dimensão do problema?

Somos campeões da hipertensão, porque comemos muito sal. No entanto, já está muito melhor, mas não desapareceu. Continuamos a ter cerca de 30% da população com hipertensão. O que não temos é hipertensão maligna, as hipertensões acima de 20 cmHg. Cheguei a encontrar pessoas com 25/28 de tensão e agora não. Agora é raro! Com 19/20 já as pessoas andam preocupadas e nós também. Agora pessoas com a tensão acima do normal, que é a 14/9 ou mais, nisso nós continuamos a ter os mesmos 30%. O que é que em vez de serem tensões de 20 ou 25 são 14 ou 15. É menos grave a situação! O número de pessoas é o mesmo, mas menos grave. Todavia continuamos a ter muitos acidentes cardiocérebrovasculares, quase os mesmos que antigamente, mas em vez de ser aos 30, 40, 50 anos são aos 70, 75, 80 anos! As pessoas conquistaram 10 a 20 anos de vida!

Por isso é que eu digo que é espectacularmente melhor, embora em números absolutos ainda sejam os piores do resto da Europa a 25. Mas vejamos, quando começámos éramos os piores do mundo. Uma coisa que nós temos em Portugal é que somos também os maiores consumidores de sal do mundo. Foram piores que nós os japoneses. Mas eles detectaram o problema, perceberam a importância do sal e começaram a reduzir há muitos anos. Por exemplo, os EUA começaram a melhorar a sua hipertensão arterial quando começaram a construir frigoríficos… a conservação já não era feita através do sal.

Para as doenças cardiovasculares existem outros factores… o colesterol elevado, a diabetes, o fumar, e nisso nós somos melhores que os outros. Nós fumamos menos que os outros. Em Espanha fuma-se 40 a 50% e ainda há países da Europa onde 70% das pessoas fumam… então o Leste é uma desgraça. Entre nós 27%! Finalmente nós temos uma alimentação mediterrânica, ou seja, muito rica, onde predominam os vegetais, as carnes brancas, até carne de porco (porque agora os porcos já são preparados de forma a não terem tanta gordura e as pessoas também já a tiram), comemos muita fruta e temos muito sol, mexemo-nos muito mais. As populações dos países mediterrânicos têm mais sol e aproveitam mais para sair e se exercitarem.

Há quem diga também que o colesterol aumenta com o número de vacas que uma região tem. Onde há mais vacas há mais leite, há mais manteiga, há mais iogurtes gordos, há mais queijo e tudo isso é que faz mais colesterol. Em todas as regiões do nosso país morrem menos que 80 ou 90 em 100 mil habitantes por doenças do coração, menos numa: os Açores! Todos os outros países da Europa têm mais que cem e entre nós esta é a única região que acompanha essa tendência. Os Açores têm quase o dobro da nossa doença coronária. Nos Açores abastecem-se demasiado de lacticínios, passeia-se pouco e fumam mais porque fabricam o seu próprio tabaco, para além de ser mais barato que o nosso.
Quais os principais factores que contribuem para a deterioração da saúde cardiovascular, no geral, e para a hipertensão, em particular?

Agora estamos ainda a baixar, mas devagarinho. Claro que já baixámos muito, mas se ainda somos os piores da Europa é porque há possibilidade de baixar. Porque não baixamos? Creio que precisamos de um conceito novo que é o conceito dos “Sub-20”. A questão é que nós não conseguimos baixar mais porque só “vendemos o nosso produto” às pessoas mais maduras… só aos 20, 30 anos começamos a olhar para o coração ou para a barriga, ou a fazer check-up. Se todos nós comprássemos carro e só fossemos fazer a inspecção aos 30 mil quilómetros andados, o carro não durava mais que 60 mil.
Nós temos de ir ao princípio! Sabemos hoje que a aterosclerose começa
na infância. Todos bem sabemos que os jovens estão a engordar. As crianças nas escolas estão a engordar. Estamos a fabricar diabéticos, hipertensos, além de fabricarmos fumadores (as teenagers recomeçaram a fumar). Com tudo isto e com a comida “de plástico” que temos à mão de todos, não comemos sopas, nem legumes, e além disso há o sal que encontramos nos alimentos que comemos fora. Em casa pode haver esse cuidado, mas nos restaurantes não há. Os jovens quando chegam aos 20 anos já são pelo menos pré-hipertensos, diabéticos ou pessoas com colesterol a mais, o que vai fazer com que a nossa esperança de vida diminua de novo. Temos que dar o conhecimento e o poder aos Sub-20 para decidirem da sua vida e evitarem estas asneiras que nós os deixámos fazer sem avisar!
Como se pode evitar/controlar a doença?

Prevenção… prevenção… prevenção! Como se consegue que as pessoas usem a prevenção? Generalizando o máximo possível. Eu por isso agradeço toda a ajuda de qualquer meio de comunicação social, porque é uma maneira de fazer chegar a informação a mais gente. Conversar one-to-one na TV é a grande solução!
É do conhecimento público que o colesterol elevado é outro dos aspectos que contribui para problemas cardiovasculares. De que forma o descontrolo nos níveis de colesterol são prejudiciais à saúde?

O colesterol é das maiores ameaças para as doenças cardiovasculares. O que acontece é que as pessoas pensam sempre que “se não é da minha família ter colesterol, então eu não vou ter”. De facto, o colesterol tem muito de familiar, mas também depende muito da nossa vida ou da vida da família. Um professor meu, dos EUA, dizia que “a saúde é um bem demais precioso para estar só nas mãos dos médicos”. E acrescentava: “doença ou morte antes dos 80 é culpa do Homem… não é de Deus, nem da Natureza”. O Homem é que acumula as gorduras em si, é que não as gasta a andar… problemas a que se soma o fumar, etc.. O colesterol acrescentado não vem dos pais, não é da família, somos nós que o ingerimos.

Então temos de reduzir o nosso colesterol com o exercício. Colesterol aumentado só por si é um veneno para as artérias, porque empapa-as e vai fazer com que as artérias desenvolvam a aterosclerose. Por exemplo, os americanos têm muito colesterol, porquê? Porque logo de manhã comem o célebre “bacon and eggs”. Dois ovos, quando um ovo é o máximo que devemos comer por dia! Um ovo tem o máximo de colesterol que podemos comer por dia. Quando se come um ovo, fica acabado. Ora eles comem dois ovos e bacon frito em manteiga… é o fim!

Quem está por trás disto tudo no momento presente é a hipertensão, é o sal. Porque com a hipertensão o colesterol fica muito pior. Hipertensão e colesterol elevado são três vezes pior… pior que somar um mais um. O principal é a hipertensão… essa é que existe em toda a parte, no entanto é facilmente reversível, se nós quisermos, transformando a nossa cozinha numa cozinha inteligente. Os temperos aromáticos são a resposta. A Maria de Lurdes Modesto passou a vida a dizer que se juntarem hortelã, coentros, cebolinho, alho francês, estragão, poejos, etc., etc. dão um sabor especial aos alimentos… para além de cozinhá-los em vapor e para isso não é preciso panelas especiais, basta um coador mantendo os vegetais a cozer acima da água da panela. Fica tudo a saber lindamente! Temos ainda o limão, o azeite, o vinagre etc., que ajudam a dar outro sabor especial e evita-se o sal. Os franceses dizem que nós temos temperos tão bons, uma cozinha tão boa, tão rica e mesmo assim vamos sempre para o sal. “O sal é a desculpa das más cozinheiras”, dizia Maria de Lurdes Modesto.

Os “Sub-20” são pois os culpados pela sua hipertensão! Desde jovens que estamos habituados ao sal e começa-se cada vez a fumar mais cedo. Temos de ensinar todos a não comerem sal. As papinhas dos bebés não devem levar sal… assim habitua-se os pequenos a não gostarem de sal. Porque um dos muitos erros que as mães cometem é o de provarem a comida dos bebés quando lhes retiram a maminha e dizerem depois quando a bebé chora que “a comida não sabe a nada” e zás… sal! Ora os meninos habituam-se ao sal desde muito cedo. É uma questão de hábito… podemos evitar que os jovens gostem de sal e muitos dos problemas que advêm disso.

Os países angolanos de língua oficial portuguesa, em que Portugal teve presença, ainda estão com muitos hipertensos precisamente por causa da presença portuguesa e pela herança do sal.
Que relação existe entre o tabaco e as doenças cardiovasculares?

Havia um americano que dizia “Se quer ter menos mortes por hipertensão… pare de fumar”. O tratamento mais importante para manter a vida de um hipertenso é fazê-lo parar de fumar. Por isso não se pode dizer que os tratamentos para tratar a hipertensão são caros… o melhor tratamento é parar!
Quais os conselhos que dá para a manutenção de um coração saudável?

Para manter o coração saudável há uma condição que faz retroceder todos os factores de risco e melhora tudo: Exercício Físico. Só 10% das pessoas fazem exercício físico para melhoria da saúde. Se fizerem Exercício Físico melhoram a performance, melhoram a saúde, gastam o colesterol, baixam a tensão, reduzem o stress, atrasam a diabetes, e é o mais barato tratamento de todos.

Como costumo dizer: A saúde do coração custa o preço de “meias solas”. Os cinco factores de risco são combatidos com um passeio a pé. Nós até temos bastante sol no nosso país… somos o país com mais sol da Europa. O país com mais sol por ano não aproveita o sol para se exercitar?
Que actividades desenvolveu o Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva e a Fundação Professor Fernando Pádua no mês de Maio, dedicado ao coração?

A nossa reunião em Almodôvar… o projecto dos “sub-20”, uma nova Delegação da Fundação Professor Fernando de Pádua. Fiz as cerimónias do 1º dia e depois deixei-os a trabalhar. Todos os dias de Maio equipas passaram por todas as diferentes freguesias do Conselho “pregando” saúde, medindo a tensão arterial, rastreando o tabagismo, controlando o peso e o índice de massa corporal e aconselhando, explicando e ensinando como promover a saúde, combater a preguiça e evitar o tabaco, o álcool, o sal e as gorduras. “Maio, Almodôvar + Saudável” foi o slogan que eles criaram. Criámos também um blog para não estarmos dependentes dos jornais, televisões, etc. Quem quiser beber da nossa filosofia vai ao blog www.subitoimpulso.blogspot.com. Queremos mobilizar os jovens, as Escolas, já propusemos Junho mês de Criança (1 de Junho é o seu dia, façam o mês!) e Julho/Agosto fica para a Juventude!
Acredita que os portugueses têm consciência de todos os riscos que advêm de uma saúde cardiovascular errada?

As pessoas têm o conhecimento. No tempo da ministra Leonor Beleza fizeram um estudo na Europa sobre os malefícios do tabaco e as doenças acompanhantes…. Portugal ficou em primeiro lugar. É um fazer mal com consciência. É preciso fazer bem, não basta saber. Está completamente difundido, a solução é criar as opções saudáveis, facilitá-las, torná-las mais baratas e mais atractivas. E sobretudo lutar pela saúde cardiovascular nas crianças, adolescentes e adultos jovens (os Sub-20) antes de descobrirem em adultos os efeitos de todas as asneiras que fizeram, e que vão dar tanto trabalho a corrigir (se forem a tempo!)
De que forma acha que o Rituais contribui para um coração saudável?

Ajudam a disseminar o mais possível toda a questão da saúde cardiovascular. É que a saúde pode não ser tudo, mas sem ela o resto é quase nada.
Mensagem aos utilizadores do programa Rituais…
Tudo o que acharem que for bem dito sobre o problema… é divulgar o mais possível. Não se calem! Digam aos familiares, aos amigos, e sobretudo aos filhos e aos netos: não fumem! Tenham medo do álcool, sejam inteligentes no que comem (fugindo das gorduras animais e do sal e abusando dos vegetais, da fruta, leite magro, peixe e carnes brancas) e sobretudo passeiem, passeiem muito a pé, todos os dias!



Fernando de Pádua é um dos cardiologistas mais conhecidos em Portugal. Professor catedrático de Medicina Interna e de Cardiologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, conta com um trabalho de mais de 50 anos a difundir ensinamentos de educação para a saúde. Com um percurso brilhante, o professor é ainda Presidente do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva e Presidente da Fundação Professor Fernando de Pádua. Médico e investigador, Fernando de Pádua tem sido, ao longo dos anos, um rosto da promoção da saúde do coração e não só.
Texto e imagens retirados D´Aqui


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