Passos Coelho, o pequeno demiurgo


Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia.

(Livro do Génesis, I,1,3)

Portugal sempre foi um país de gesta original e criativa. Em tempos demos novos mundos ao Mundo. Hoje, damos novos deuses e novos alquimistas.

E Passos Coelho disse: – Cortem-se salários e pensões. Reduzam-se e cortem-se os subsídios de desemprego. Aumente-se a precariedade. Levem-se as pequenas empresas e negócios familiares à falência e ao saldo das penhoras, façam-se mais pobres em quatro anos do que em quarenta anos de História. E assim se fez. E Passos olhou e gostou do que viu. Eram milhares, de mãos estendida. Porém, magnânimo e complacente mandou abrir cantinas sociais e prosperar bancos alimentares para que não morressem todos à míngua.

E Passos Coelho disse: – Que emigrem os jovens e saiam da zona de conforto. Emigrar é uma oportunidade de levar Camões para lá do Bojador e de ganhar mundo para lá da nossa apagada e vil tristeza. E lá foram os infantes entre abraços dos pais e lágrimas das noivas. E Passos olhou e gostou do que viu. Porém, magnânimo e complacente, logo decidiu que iria criar um programa de incentivo ao regresso de meia dúzia de entre os milhares que tinham emigrado, para os poder ir receber ao aeroporto no horário nobre das televisões. Até os Deuses são vaidosos e, aos crentes, não devem faltar ocasiões para os adorar. E sempre a bem dos crentes e da Nação.

E Passos Coelho disse: – Que se liquidem os bancos maus e que fiquem só os bancos bons, e que fiquem bons e cada vez melhores à custa dos que foram enganados pelos maus. E aos ludibriados deixemos a rua para protesto e nem um cêntimo para as poupanças que perderam. E Passos olhou e gostou do que viu. Eram milhares todos os dias, com cartazes e raiva, mais velhos que novos, porque aos novos já só resta a esperança de ir sobrevivendo, quanto mais de poupar. Porém magnânimo e complacente, logo decidiu abrir uma subscrição pública para obter fundos que permitissem àquela gente protestar nos tribunais,sendo ressarcidos, por terem sido injustamente espoliados.

E Passos Coelho disse: – Que se corte na saúde, na educação, na ciência. Somos um país de remediados que não pode viver acima das suas possibilidades. E assim se fez. Os médicos debandaram uns, reformaram-se outros. As escolas fecharam, as universidades encolheram. Os investigadores deprimiram uns, emigraram outros. E Passos olhou e gostou do que viu. Porém magnânimo e complacente, logo decidiu promover mais hospitais privados, dar mais subvenções aos colégios e dar umas bolsas de estágio nas empresas aos investigadores desempregados.

E Passos Coelho disse: – Que se privatizem as receitas da segurança social. Os cidadãos que mais podem descontam imenso. Os fundos privados de pensões estão a precisar de liquidez para investir. Temos de ser um país competitivo e, hoje em dia, só se ganha dinheiro na especulação financeira e não na esfera real do investimento produtivo. Até porque queremos ser, a médio prazo, a décima economia mais competitiva do Mundo.

E Passos olhou e não gostou do que viu. É que, nessa altura, alguém lhe questionou as suas certezas quanto ao sucesso da medida, perguntando-lhe pelas contas. Mas magnânimo e complacente, limitou-se a responder:
– Einstein disse que Deus não joga aos dados, referindo-se ao caráter probabilístico da realidade quântica. Mas eu não sou Deus. Sou apenas um pequeno demiurgo. Eu jogo aos dados com a Segurança Social e com as reformas dos portugueses. Deixem-me jogar à vontade.

(Estátua de Sal, 13/09/2015)

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